terça-feira, fevereiro 26, 2008

Os Intelectuais e o Fim da História

A questão dos “Intelectuais”, melhor, a questão do papel histórico do intelectual, questão derivada da ênfase atribuída pela formulação Comunista, visando a sedução do pensador pela dinâmica de transformação histórica da sociedade, mantêm-se como objecto de discussão, pelo menos na revisão dos comentários e outra prosa escrita em revistas e suplementos jornalísticos, apesar da notória dessa carga ideológica inerente à derrocada política do Leste Europeu.
Alguns analistas, têm vinculado a ideia de «fim» desses míticos intelectuais, grandes pensadores da história e organizadores das metanarrativas do mundo hodierno, que, prácticamente desde o Iluminismo vinham ordenando as fracturas ideológicas mais importantes no pensamento e acção sócio-política da humanidade, através das suas obras escritas fundamentais, que apresentavam, em simultâneo, um pensamento tendencialmente uniformizante e totalizante, isto é, partindo da análise unidimensional do Homem(ora só psíquica, ora só económica, ora só social, ora só ideológica). Rousseau, Vico, Kant, Hegel, Marx, Sartre, entre outros são expoentes deste tipo de pensamento que formatou a dita modernidade.
Digamos, que a ideia em circulação no mundo das letras e das ideias, na actualidade, é que no tempo histórico que atravessamos a sociedade parece incapaz de produzir pensadores dessa dimensão, dessa grandeza!...

Qual fim da história, antecipado por Fukuyama(afinal um pensador dos nossos tempos...).
No entanto, perdoem-me esses analistas, mas o meu ponto de vista é radicalmente oposto, discordando da situação focal em que o debate está colocado.
Ponto 1: O intelectual será, por definição, não aquele que usa o intelecto, e portanto o pensamento, pois essa é a função inerente a toda a humanidade, mas, pensar o homem em função da sua história, da história do mundo, da sua situação na variedade cósmica, reflectindo sobre os sentidos da vivência colectiva, da organização das sociedades e das formas de evolução/involução humanas, fazendo luz sobre as sombras do presente e as incógnitas do futuro.
Ponto 2: Neste quadro, parecem-me inúmeros os homens que se inscreveram com estas qualidades, desde as profundezas seculares, movendo a humanidade pelos líames da evolução e construção civilizacional.
Ponto 3.: Todo o intelectual se insere num quadro mental que no plano social e cultural se inscreve na sociedade e época em que participa, embora o seu quadro conceptual possa ir muito além dos mesmos; significando isto que não pode ficar imune às influências da sua época, na forma como organiza e expõe as ideias, que material simbólico e ideológico coloca nas suas produções intelectuais. Quero dizer que não podemos comparar num plano meramente teórico, Santo Agostinho e Hegel, ou Padre António Vieira e Eduardo Lourenço. A distância secular e dos modos de vida das sociedades em que se inseriram tornam-nos quase estranhos, no entanto estão irmanados pela pertença à família daqueles que utilizaram o seu intelecto como forma de subir mais degraus na consciência civilizacional, inserindo-se na intemporalidade do pensamento.

Deste modo, e esta é minha tese, não podemos afirmar que pelo facto de os intelectuais de hoje partirem, nas suas obras do seu quadro epistemológico disciplinar, tentando perceber o que os rodeia, alargando progressivamente o seu campo de acção intelectual, deixem pura e simplesmente de serem intelectuais, ou que já não existam mais. Apenas as condições épocais de exercício do pensamento são hoje diferentes, por força da dominância da matriz científica disciplinar que predominou no século XX. Mas, não podemos afirmar que Edgar Morin, Basarab Nicolescu, Fritjof Capra, Boaventura de Sousa Santos, Carl Sagan, entre muitos outros, não sejam intelectuais no sentido global que supra referi, pois todos se inserem num caminho mental de iluminação do conhecimento humano como referi no Ponto 1.

A natureza profunda do intelectual actual está a afastar-se da imagem adquirida entre os últimos dois séculos XIX e XX, das metanarrativas por eles criadas de progresso e utopia baseada na totalização de um vector da acção humana(economia ou política, psicologia ou tecnica, sociologia ou antropologia), porque a sociedade e os seus valores estão a transitar rapidamente de um modelo estável para um modelo volátil, e volatilizado pelo excesso continuo e diário de informação, apelo ao consumo, status, e tecnologização, onde o papel do intelectual procura a sua nova função, sem deixar de existir enquanto pensador autonómo e liberto das amarras do tempo no plano do pensamento, que não no plano da sua vivência social e cultural.
Não estamos no fim da história dos intelectuais, porque aí estaríamos no fim da história da humanidade.
Prometo voltar a este assunto em próximo texto.

1 comentário:

Fernando Peixoto disse...

Boa proposta de reflexão, a continuar. Estarei acompanhando com todo o interesse.
FERNANDO PEIXOTO