terça-feira, fevereiro 26, 2008

POR UM PROJECTO CULTURAL ABERTO



Há quem pense que a ciência, religião, filosofia e arte não se encontram pelos mesmos caminhos, como se a matriz, a capacidade imaginativa e criadora do cérebro humano, fosse assim um espaço compartimentado, sem comunicação entre os elementos que o compõem e dispõem a humanidade à sua actividade consciente e civilizacional.


O espirito grego ou a renascença estão aí para confirmar que, ao contrário das amarras ideológicas, epistemológicas e disciplinares que a modernidade construiu, para encerrar a sabedoria e destituir os sábios, só o ecletismo e a visão universalista, a capacidade de poder articular conhecimentos num avisão fenomenológica total(ler Teilhard Chardin) poderá levar-nos a compreender e actuar sobre a diversidade do mundo, a diversidade humana, num contexto como o actual de mundialização, isto é, onde cada parte da cultura humana, seja nacional, regional, ou outra, é rápidamente objecto de atenção e análise, devido à difusão tecnológica, da rapidez das comunicações.


A nova era, em que já estamos vivendo, a era global, tem de Ter como resposta um projecto global de cultura. Isto é, uma dinâmica de valorização, estudo e saber que abarca as diversas àreas da produção e aquisição do conhecimento humano, bem como dos diversos tipos desse mesmo conhecimento, produzido pelas diversas civilizações humanas, que não só a ocidental, tecnológica. Tem de ser um projecto que abarque a mais pequena migalha da “ciência humana” e a transforme em saber total aberta ao mundo.


Não podemos dividir, ou criar estigmas de saber, entre o saber científico (hoje dominante) e os restantes saberes como o filosófico, o artístico, o ético. No momento actual possuimos um conhecimento histórico que nos permite perceber a falibilidade de um saber que assenta só sobre si próprio, excluindo os demais. A tecnologia sem a rede de suporte de um a estrutura cultura ética, de valores, sem uma dimensão libertadora e criativa do espirito humano, será a subjugação das massas ao império da máquina, do consumo, do mero económico.
A cultura é cada vez mais o que produzimos e acrescentamos à natureza, sem deixar de ser, também, aquela quota mais elevada de produção artística e espiritual, onde o belo, o estético e a exigência são valores de medida. Deste modo querer continuar a enfaixar a cultura em estreitas faixas que remetam ora para a popularização (ou como é vulgar dizer-se o “apimbalhamento da cultura”) ora para o limbo da elevação artística, é continuar na pobreza dos conceitos em que modernidade se fechou.


A nova cultura mundial exige de nós espaços abertos, transcendência, historicidade, projecção, sagrado, ética, visão holística, capacidade de síntese e partilha de espaços disciplinares, exige espanto e reorganização do conhecimento, visão cósmica e reconciliação.
Qualquer projecto cultural que não contenha estes elementos, que não se predisponha à abertura e à descentração, que não proponha diálogos e quebra de fronteiras, simbólicas ou reais, é uma tentativa de estancar a história.
O cultural, hoje, abarca o total, e representa o fenómeno civilizacional nas suas características históricas e na sua dimensão criativa e fundadora do futuro.




Bibliografia a ler para aprofundar o assunto:
O Fenómeno Humano- Teilhard Chardin(1998).Editora Paulus, Lisboa.

2 comentários:

Fernando Peixoto disse...

Estou com uma raiva imensa.
O blog tá mesmo interessante e os textos abrem-me o apetite de comentar com outras reflexões, suscitadas por estas. Infelizmente, por estes tempos mais próximos, terei de abster-me e ser intelectualmente abstémio é doloroso...
Bom trabalho. Abraços do
FERNANDO PEIXOTO

joaquim disse...

Viva,
Esperemos que este tempo de "abstémia" passe porque com o Fernando Peixoto ficará mais rico sem dúvida!

Abraços